Prova da UERJ/2015 comentada: o que se quer avaliar?

A Rede Emancipa RJ preparou um breve comentário sobre a prova do 1o Exame de Qualificação do Vestibular UERJ 2015, que pode ser acessada aqui e o seu respectivo gabarito aqui.

Considerando que o vestibular é um exame que se propõe a avaliar candidatos para permitir ou não o seu ingresso ao ensino superior, a escolha sobre que tipo de questão colocar numa prova demonstra que tipo de perfil de candidato a instituição valoriza. Vamos fazer aqui alguns breves comentários sobre a prova.

É nítida a desarticulação entre a prova de linguagens e de ciências humanas e a de matemática e ciências da natureza: não há um fio condutor que dê coerência à prova. Vamos dividir em tópicos a análise, da mesma forma em que a prova é fatiad… quer dizer, organizada.

Língua Portuguesa (16 questões)
Esta prova explora bastante o tema das manifestações de rua – chama atenção a discussão de temas da atualidade – duas questões sobre uma charge que discute os rolezinhos, cinco questões sobre um texto acuradíssimo de José Miguel Wisnik sobre os assassinatos de Cláudia Ferreira e Amarildo, quatro questões sobre um texto na linha “desculpe-me por meu racismo” de Denise Fraga, quatro questões sobre o imobilismo do poste do enfim revisitado poeta Manoel de Barros.

Prova de língua estrangeira (4 questões)
Esta consiste de uma escolha entre um dos textos (espanhol, francês ou inglês) que tratava da relação entre as mobilizações massivas de 2013 e as insatisfações com a Copa do Mundo (há que se dizer isso com cuidado para não ter que pagar royalties para a FIFA). Parece que só se pode falar sobre isso em outra língua: “re-reforma” do Maracanã, “orgulho” da Dilma, investimento em educação pública; a “mobilização da população por direitos” ficou très chic redigida em francês, assim como as “numerosas e diversas demandas” das ruas. Também foi interessante ver o texto em inglês entrevistando a socióloga Saskia Sassen, para quem os movimentos de junho são “coisa de classe média” , bem ao gosto do discurso “não fale mal do governo”.

Prova de Matemática (8 questões)

Esta prova teve uma questão sobre Progressão Aritmética que envolvia frações; duas questões sobre proporção – uma em que se revela o preço assombroso do peito de peru (R$ 50 o kg) e a outra sobre pacotes de cadernos; uma sobre geometria espacial que trata do volume do cone e sua variação com relação à sua altura; a questão 26 tendencia uma resolução a partir de funções de 1o grau ou geometria analítica pelas intersecções de retas – optamos por resolvê-la por semelhança de triângulos para trabalhar as relações elementares. Há um enunciado que serve a duas questões – a primeira exige a decodificação de determinado símbolo que pode ser feita através da tabela apresentada separando as barras dos símbolos de 4 em 4; a segunda delas trata de probabilidade relacionada ao sistema de código apresentado. Por fim, um gráfico de função logarítmica – em que é necessária a leitura do gráfico e uma conversão de escala sugerida pelo enunciado.

A prova de matemática destoa do centro da discussão da prova de humanidades. Só apareceram duas questões de geometria (considerando a questão 26, que poderia ser resolvida através de funções). A maioria das questões (22, 23, 25, 27, 28) trataram com assuntos relacionados a números, conceito de número, proporçõeso campo da aritmética em geral. Foi uma prova que não tratou de trigonometria, ângulos, números complexos, polinômios, matrizes determinantes, cônicas e muito pouco de funções. Boa parte delas eram perguntas voltadas à interpretação do enunciados, uma prova bastante formal.

Clique aqui para acessar a resolução comentada da Prova de Matemática elaborada por Everaldo Silva.

Prova de Ciências da Natureza

Idem para a prova de Ciências: salpicada de conhecimentos aleatórios. A primeira questão, para fazer qualquer biólogo estudioso ficar orgulhoso, mostra um cladograma representando a evolução das plantas terrestres. Pena que não é o caso de todos os outros não-biólogos – estes geralmente encaram a botânica como um festival de nomes incompreensíveis ou sequer chegaram a ter aula de botânica na escola. Combustíveis fósseis e substâncias de cozinha da química orgânica sempre presentes, uma ou outra de cinemática. Questões clássicas sobre o tal do peixe de água doce que vai para a água salgada e vice-versa – osmose. Biologia molecula, frequentadora assídua – 2 questões sobre ácidos nucleicos, afinal de contas “tudo está no DNA” (só que não). Citologia – o papel dos lisossomos na transformação do girino, estrutura atômica (2 questões), estequiometria, volume de gás.

Clique aqui para acessar o gabarito comentado da Prova de Química elaborado por Júlia Pancini.

Prova de Humanas
Nesta prova vemos questões sobre fluxos migratórios; globalização; outra sobre o crescimento da força de trabalho no mundo, e também uma questão sobre as mudanças na organização da produção nas fábricas; uma sobre projeções cartográficas; Conferência de Estocolmo como marco de início do que pensa a ONU sobre a questão ambiental; uma questão que considera que a coleta seletiva resolverá os problemas causados pelo acúmulo de lixo; o atual conflito na Crimeia; também uma sobre a militarização em que é citado o Complexo da Maré.

De acordo com o gabarito, algumas das questões que seriam referentes à História e Geografia expectativas de leitura estreitas, para dizer o mínimo. Uma sobre a Revolta do Vintém, com um texto que descreve em detalhes uma situação em que há quebra-quebra e com uma narração de tom persecutório a descrever uma insensata turba “a espancar condutores, esfaquear mulas, virar bondes e arrancar trilhos ao longo da rua Uruguaiana”. Outra com o quadro “Operários” , de Tarsila do Amaral. Espera-se que o aluno julgue, a partir da linguagem artística usada por Tarsila do Amaral, que o quadro retrata “diversidade cultural” (ainda que o tom de bege bem clarinho fosse amplamente predominante em quase todos os rostos do quadro, como se pode bem ver aqui). Há ainda uma questão com um trecho de “Os sertões” para lá de ambíguo que elege como principal característica do homem do sertão o determinismo ambiental. Outra discute a crítica ao totalitarismo presente no romance “1984” de George Orwell.

Apareceram duas questões sobre a ditadura militar. A primeira sobre o voto dos analfabetos sendo discutido por duas perspectivas distintas em 1964, antes da queda de Jango. E a outra, com a análise de dois gráficos – o primeiro que indica uma série temporal do PIB per capita desde 1960 até 2013, um gráfico galopante que demonstra enorme incremento da economia brasileira no período da ditadura, e um crescimento ainda maior nos tempos atuais. O segundo gráfico mostra o aumento da concentração de renda durante a ditadura, que caiu mais do que a popularidade do Sérgio Cabral nos dias de hoje. Devemos mesmo viver no melhor dos mundos (só que não [2]). Tanta coisa que se poderia falar sobre esses 50 anos de memória sonegada… A vida é feita de escolhas, e algumas acontecem antes mesmo das restritas a A, B, C ou D.

Comentário geral: Maíra Tavares Mendes (Coordenadora da Rede Emancipa RJ, Doutoranda em Educação pela UERJ, Licenciada em C. Biológicas pela USP).

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