Quais dificuldades jovens de cursinhos populares enfrentam para entrar no ensino superior

Esta pesquisa qualitativa busca compreender as características dos processos de socialização e de escolarização de estudantes de um cursinho popular na cidade de São Paulo, particularidades que os fazem contrariar a tendência geral de sua camada social e passar do ensino médio para o ensino superior. Segundo o autor, o estudo evidencia como mesmo esses jovens encontram barreiras e dificuldades – educacionais, materiais e culturais – para fazer essa transição e mostra as estratégias desenvolvidas por eles para tentar superá-las.

A qual pergunta a pesquisa responde?

De um lado, a pesquisa busca apreender e compreender as especificidades e singularidades de processos de socialização e de escolarização de estudantes do cursinho popular investigado que os impelem a transgredir a tendência modular – entre os jovens de camadas populares na cidade de São Paulo e, de modo geral, na sociedade brasileira – à auto eliminação escolar operada, justamente, no momento próprio à transição mais elevada do sistema de ensino nacional, ou seja, a passagem do ensino médio ao ensino superior. Por outro lado, o estudo evidencia como mesmo esses jovens – que escapam ao destino modular de seus pares de classe – vêm a encontrar barreiras e dificuldades objetivas em suas tentativas de realizar a referida transição educacional. Nesse momento do estudo, portanto, evidencio quais fatores e condições, presentes nas trajetórias de socialização e de escolarização desses jovens, são responsáveis por tais dificuldades objetivas. Ademais, o estudo tematiza, igualmente, os modos a partir dos quais esses garotos e garotas experienciam subjetivamente tais dificuldades, buscando constituir estratégias e tentativas de superá-los.

Por que isso é relevante?

Dada a notável diversificação dos perfis sociais e culturais de ingressantes no ensino superior nacional, desdobrada fundamentalmente na última década, a temática abordada no estudo afigura-se como pertinente a amplos debates no campo da educação, uma vez que a pesquisa busca desvendar a produção social (ou seja, o processo de socialização e de escolarização) de agentes que se constituem, no mais das vezes, como a primeira geração de seus grupos familiares a aspirar e a efetivamente tentar (com sucesso ou não) o ingresso no ensino superior público ou, por vezes, em instituições tradicionais do ensino superior privado via Prouni (Programa Universidade para Todos). Ademais, o estudo também evidencia as barreiras e dificuldades – de ordem educacional, material e cultural – que esses agentes encontram em suas tentativas de acesso, delineando a forma como eles experienciam e reagem subjetivamente a essas dificuldades objetivas. No tópico a seguir, esclareço, portanto, que dimensões de suas trajetórias de socialização e de escolarização são pertinentes à reflexão sobre os dois pontos acima suscitados.

Resumo da pesquisa

Por um lado, o estudo buscou investigar as condições e os processos de socialização e de escolarização que inculcam disposições à concorrência pelo ingresso no ensino superior entre jovens de bairros periféricos ou semiperiféricos da cidade de São Paulo. Nesse ponto, o estudo busca compreender, portanto, como, a partir da incorporação de tais disposições, esses jovens escapam à tendência de auto eliminação escolar, ainda majoritária entre seus pares etários de classe social. Por outro lado, a pesquisa também buscou investigar quais as barreiras e as dificuldades experimentadas, objetiva e subjetivamente, por esses jovens quando eles efetivamente buscam escapar ao destino social e educacional comum aos seus pares de classe social. A pesquisa de campo foi realizada entre 2012 e 2014, numa iniciativa de cursinho popular (que atende cerca de 400 estudantes por ano) situada na zona norte da cidade de São Paulo. O estudo articulou diferentes técnicas de pesquisa qualitativa, tais como a observação etnográfica e as entrevistas qualitativas conduzidas junto a estudantes, bem como a alguns de seus pais e professores no cursinho.

Quais foram as conclusões?

As conclusões do estudo delineiam uma série de mecanismos de socialização empiricamente observáveis nas trajetórias de jovens de camadas populares que tentam o ingresso no ensino superior. Tais mecanismos e dinâmicas dificilmente seriam alcançados pelos tradicionais estudos quantitativos, bem sucedidos em demonstrar e pesar as correlações estatísticas que nos esclarecem acerca das chances diferenciais de transição ao ensino superior, porém cegos e incapazes de alcançar e revelar os processos de socialização e de interação empiricamente concretos e subjetivamente experienciados pelos agentes que tentam “chegar lá”. Ademais, o estudo evidencia que, frequentemente, os jovens buscam compensar as desvantagens e deficiências – acumuladas ao longo de sua escolarização e socialização – por meio de estratégias e de práticas flagrantemente descompassadas ante as exigências dos vestibulares. Esse é o caso, por exemplo, da ampla recorrência dos informantes ao estudo a partir de vídeo-aulas disponíveis na internet: prática esta que não os investe das disposições à ágil e eficiente interpretação textual, a principal competência avaliada e valorizada em exames como o Enem, por exemplo.

Quem deveria conhecer seus resultados?

Creio que os resultados interessam a pesquisadores das mais diferentes áreas da economia e das ciências humanas, jornalistas, profissionais do campo educacional, bem como o público interessado em análises e reflexões equilibradas e desapaixonadas sobre as recentes mudanças aferidas no sistema educacional brasileiro.

Eduardo Vilar Bonaldi fez graduação, mestrado e doutorado em Sociologia pela USP (Universidade de São Paulo), entre 2003 e 2016. É professor adjunto no Departamento de Sociologia e Política da UFSC (Universidade Federal de São Carlos) desde agosto de 2016.

Fonte: Nexo Jornal

 

 

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