Aula Pública da Rede Emancipa reúne 2500 jovens em São Paulo

As atividades do sábado começaram cedo. Às 8h do dia 12 de março de 2017, jovens que chegavam de diferentes pontos da cidade de São Paulo e da região metropolitana organizavam milhares de cadeiras no vão do Museu de Arte de São Paulo (MASP), em plena Avenida Paulista. O símbolo da cidade aos poucos foi se tornando palco daquela que viria a ser uma aula histórica, para esses jovens e para professores, coordenadores e apoiadores da Rede Emancipa.

Nascida em 2007, em Itapevi (SP), o que era uma rede de cursinhos populares se tornou, nesses 10 anos de história, um gigante movimento social de Educação Popular. Espalhou-se por sete estados do país; hoje em 24 cidades, consolidou 36 unidades dos cursinhos pré-universitários, principal ferramenta de mobilização. Mais do que aprovação dos estudantes da Rede Emancipa nos vestibulares, esse é um movimento que resgata a organização da luta em defesa da educação pública e de tantos direitos historicamente negados a uma enorme parcela da população. São alguns desses jovens, que tiveram o acesso à educação de qualidade negado e que talvez nem preservassem a aspiração de ingressar no ensino superior, que estavam ali – a maioria mulheres, negras e da periferia: organizando cadeiras para participarem da atividade que abriria o ano letivo nos cursinhos.

Mais do que uma aula inaugural, marcando o início de um ano letivo para os novos estudantes dos cursinhos populares, a manhã daquele sábado fica marcada por um espetáculo de emoções. A condução das intervenções ficou a cargo de Taline Chaves e Alex da Mata, fundadores da Rede Emancipa e do primeiro dos cursinhos, o “Chico Mendes”, em Itapevi.

A programação da atividade foi organizada para dar voz a estudantes e coordenadores dos cursinhos, que desfilavam orgulhosos com os coloridos estandartes preparados especialmente para a ocasião. Cada um deles com o registro dos lugares por onde o Emancipa se instalou na última década. Ex-alunos aprovados nos vestibulares prestaram depoimentos sobre a importância do movimento, que mais do que aulas, proporcionou vivências e debates sobre uma educação transformadora que ofereça o máximo de instrumentos para que estes pensem as suas realidades de maneira crítica e emancipadora. Em seguida foi a vez  de um representante de cada Estado que existe Emancipa falar sobre uma característica em comum que todos os cursinhos da Rede tem: nossa concepção pedagógica, o protagonismo dos estudantes, a importância da cultura periférica, do debate de gênero, da negritude e da defesa do meio ambiente

A Rede Emancipa, que tem como forma de financiamento principal as doações voluntárias de apoiadores, prestou uma bela homenagem a estes, que às vezes anônimos, possibilitam o desenvolvimento das atividades. Dentre apoiadores conhecidos e que puderam comparecer à atividade, estavam a jovem vereadora de São Paulo Sâmia Bonfim (PSOL); a militante Zezé do Núcleo da Consciência Negra da Universidade de São Paulo; o advogado ativista Daniel Biral; a diretora do DCE livre da USP Gabirela Ferro; e o jurista e professor Silvio de Almeida. Foram homenageados também todos que construíram e constroem a Rede nesses anos. Um público entusiasmado aplaudiu de pé.

Como marco das comemorações do décimo aniversário, ocorreu o lançamento da revista que conta a história de construção do movimento. Quem conduziu esse momento foi o professor Gilberto Franca, um dos fundadores da Rede Emancipa. Esse foi um momento muito simbólica. A revista, além de ser comemorativa e guardar a história do Emancipa, impulsiona o movimento para o futuro!

Na sequência, as mulheres Cia. de Artes do Baque Bolado fizeram uma intervenção em pernas de pau, construindo com barbantes uma rede simbólica que unia os indivíduos em um coletivo. A letra da música da cantora Teresa Cristina, entoada por Ana Laura, lindamente fazia um chamado “se negro soubesse o talento que ele tem, não aturava desaforo de ninguém”. Essa foi a ponte para o próximo momento da intensa e festiva programação.

O futuro da Rede Emancipa e os desafios da luta pelo acesso à universidade fizeram parte da aula inaugural ministrada pelo professor Maurício Costa. Mais do que uma palestra formal carregada de conteúdo, a aula foi um incentivo à organização daqueles estudantes, que ao final levantaram cartazes cujos textos impressos sintetizavam o propósito de todo o movimento: educar para a liberdade.

No movimento da construção de um novo futuro, o coletivo Juntos! fez o convite para a construção e participação no Acampamento Internacional das Juventudes em Luta, que ocorrerá em abril no Rio de Janeiro. Trata-se de um momento de construção coletiva de mobilização e de uma alternativa à crise social, política, moral e ambiental que nos atinge a todos. Uma crise que também é de ideias e projetos. É necessário que a juventude e o povo trabalhador sejam protagonistas dessa mudança e a Rede Emancipa estará presente.

A aula inaugural aconteceu na semana do dia 8 de março (dia internacional das mulheres). Marcado por muita luta no mundo todo, não poderia passar em branco. Thais Ramos, ex estudante do cursinho Chico Mendes e atual coordenadora da Rede declamou uma poesia que levantou o público.

O fim da atividade, que marca o início dos próximos 10 anos de história ficou por conta da Escola de Samba Em Cima da Hora, do Grajaú, e do MC carioca PH Lima. Após o animado samba e as rimas do hip hop, estudantes antigos e novos se reuniram com coordenadores e professores de cada cursinho, para enfim dar início a mais um ano, dos próximos tantos de lutas e histórias que vêm pela frente.

Emancipa 10 anos: “Se muito vale o já feito, mais vale o que será!”

Encontro Nacional da Rede Emancipa decide por campanha nacional em defesa das universidades e contra a reforma da previdência

A Aula Inaugural fez parte da programação do Encontro Nacional da rede Emancipa. Reunindo cerca de 70 representantes que vieram de todo o Brasil – Pará, Rio Grande do Norte, Distrito Federal, Rio de Janeiro, Mina Gerais, São Paulo e Rio Grande do Sul – o encontro durou três dias e armou o movimento social para o próximo período.

As delegações começaram a chegar na cidade de São Paulo durante a manhã da sexta-feira. No período da tarde aconteceu um círculo em que, inspirados no Movimento dos Trabalhadores sem Teto (MTST), foi construído uma carta de princípios e votada  a nova forma de organização da Rede Emancipa. Durante à noite foi realizado um rico debate sobre a conjuntura internacional, nacional e regional. Debateu-se desde Trump, Temer, reforma da previdência, crise nas universidade públicas, agronegócio, corrupção e o papel da Rede Emancipa enquanto movimento social de educação popular. Neste momento o Encontro Nacional decide por construir campanhas nacionais em defesa das universidades e contra a reforma da previdência e pela participação no Acampamento Internacional das Juventudes em Luta.

As atividades iniciaram cedo no sábado com a Aula Pública. No período da tarde ocorreu a mesa “Começo, meio e fins” com a presença das coordenadoras  Taline Chaves (Itapevi – SP), Marcela (Alfenas – MG) e do coordenador Juliano (Rio de Janeiro – RJ). Em seguida as mais de 70 pessoas presentes se dividiram em grupos de discussão. O objetivo era colocar em contato e em diálogo as múltiplas experiências dos diversos cursinhos espalhados pelo Brasil e construir uma síntese sobre nossas práticas pedagógicas. A noite foi o momento de comemorar! Mais de 200 pessoas passaram pela “Festa da Década”  para curtir o reencontro do grupo Sambiarra, cujos membros são militantes da Rede Emancipa, o cantor Wagner e brindar a primeira década do Emancipa!

O Encontro encerrou no domingo pela manhã com a primeira reunião da coordenação nacional da Rede Emancipa. Foi feito o balanço e se pensou as perspectivas para o próximo período. Os desafios são imensos. Mas a Rede Emancipa sai desse encontro fortalecida para enfrentá-los.

 

 

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