Mais vale o que será!

Em 2017 a Rede Emancipa completou dez anos de sonhos, lutas e esperanças. Dez anos de construção coletiva feita por muitas mãos e pés, das nossas e nossos das periferias, de uma militância alimentada pelo desejo de mudar a sociedade por meio da educação, do seu poder, de suas asas.

Temos mais de 50 cursinhos populares pré universitários gratuitos espalhados nas cinco regiões do Brasil; Emancipa Esporte que atende 180 crianças e é coordenado pela Joanna Maranhão, além do esporte realizamos os círculos com as crianças e encampamos a luta contra a pedofilia; estamos construindo a educação popular com os jovens que estão reclusos no cruel sistema prisional a partir da experiência do Emancipa DEGASE, nas ocupações por moradia estamos desenvolvendo a alfabetização de jovens e adultos, nos morros do Rio de Janeiro a  educação popular infantil; nas periferias de São Paulo estamos fazendo o Sarau e o Slam Emancipado; estamos desenvolvendo as oficinas de Libras, temos Orientação Ocupacional e Profissional, estamos construindo o curso Nem Uma a Menos, em parceria com o coletivo Juntas e o mandato da vereadora Sâmia Bomfim, um curso de formação para as meninas e meninos da periferia que debate gênero, raça e classe; a lei Maria da Penha; direitos sexuais e reprodutivos; mulher no mercado de trabalho e na política; um curso que para as nossas e nossos significa muito mais que uma formação teórica, significa nossa segurança, nossas vidas! E, por fim, neste grande ano, o início de mais um sonho: a Universidade Emancipa! Uma Universidade popular!

Em São Paulo, 2017 foi um ano que demos um grande salto. Começamos o ano com uma campanha de  financiamento coletivo vitoriosa, que nos permitiu a tiragem de 10.000 revistas, a realização de uma aula inaugural com 2.500 estudantes e o Encontro Nacional. Foram grandes vitórias! Consolidamos no Encontro Nacional a construção coletiva da carta de princípios e a formatação de um método radicalmente democrático e independente de construção da Rede Emancipa, dando vez e voz a todas e todos que militam no movimento, garantimos a regularidade dos espaços coletivos de formulação, ação e construção do movimento.  A Revista dos 10 anos expressa nosso plano político pedagógico, sintetiza as linhas gerais de nossa história, tem servido para a formação de nossos militantes e para todas e todos que se encantam com a luta por outra sociedade. Escrita por nós e para nós! Todas e todos, pilares concretos que sustentam esse movimento social: aos sábados, nas aulas e círculos, nas reflexões e ações cotidianas, com as/os nossas/os estudantes, com nossa ousadia em não temer em sonhar e fazer nossos sonhos se tornarem reais em cada um dos bairros que estamos!  A nossa aula inaugural unificada mostrou a cara que temos: uma cara negra, periférica e feminina! Nada nos tira a alegria de construir esse movimento! De saber que nossas/os ex estudantes continuam conosco, ombro à ombro, fortalecendo o movimento, planejando, formulando, coordenando  a realização dos nossos sonhos!

Ombro à ombro ocupamos a USP em junho,  com mais de 600 jovens dizendo que queríamos COTAS JÁ! E fomos parte da vitória da adesão de cotas na USP e UNICAMP. Quem dera um texto conseguir expressar o que sentimos naquele dia e a emoção que foi celebrar na aula unificada das turmas de agosto essa grande vitória! Nossas vidas importam! Nossas lutas importam! Nossas vitórias importam!

Em Julho, no Grajaú, reunimos mais de uma dúzia de professoras e professores universitários e lançamos a Universidade Emancipa, um centro nacional de formação em educação popular. Uma maneira do conhecimento acadêmico, muitas vezes preso dentro dos muros das universidades, ser de fato uma ferramenta para o povo. Uma Universidade Popular para o fortalecimento de todas e todos para a luta popular!

Sabemos que conhecimento é poder, sabemos que produzimos conhecimento e poder em cada uma de nossas ações, em cada curso de formação de educadoras(es) que formulamos, em cada círculo e aula. Por esse poder que finalizamos o ano com a Escola Emancipa: um espaço de formação militante para as/os estudantes, onde debatemos sobre a leitura do mundo que nos cerca e a história e legado dos Panteras Negras.

Fizemos tudo isso porque acreditamos na educação popular como combustível para luta popular. Vivemos num país marcado por séculos de escravidão, pela desigualdade social profunda. Os poderosos sempre fizeram de tudo para manter seus privilégios.

A atual realidade brasileira nos exige mais! São tempos difíceis, de crise política e econômica, de desemprego, que atinge sobretudo as e os jovens pretas/os e periféricas/os. São tempos de desesperança em relação ao futuro, de ataques aos nossos direitos, de escola sem partido, reforma do ensino médio, congelamento dos gastos com educação e saúde, de negociação da PEC 181, da “Cura Gay” e da redução da maioridade penal feita por Temer com as bancadas parlamentares mais atrasadas e conservadoras para se manter no poder e aprovar a reforma da previdência são exemplos da forma de governar dos poderosos. É nesse contexto que atuamos e nos fazemos como espaço necessário de resistência, esperança e muita luta.

É nesse contexto que a juventude e as mulheres desesperam os poderosos com a ocupação das escolas e a primavera feminista. Há luta, há braços! Há resistência!

Os próximos anos serão de luta, não temos dúvida, pois muito falta às nossas e aos nossos. Sabemos do nosso papel, que as nossas vidas não começaram e não vão terminar com o vestibular! Que venham os próximos 10 anos, vamos nos enraizar cada vez mais nos bairros, nos fortalecer ainda mais como mulheres,  negras e negros, lutar por nossos direitos de amar e viver.

Em 2018, vamos fazer o Nem Uma a Menos em cada um de nossos cursinhos, construir o nosso Encontro de Mulheres, combater o projeto nefasto do escola sem partido, avançar com o nosso projeto de acolhimento de estudantes, educadoras e militantes que são mães, contruir a Universidade Emancipa a partir dos eixos: Educação, Realidade Brasileira, Direito à Cidade, Negritude e Mulheres; vamos abrir um cursinho em cada quebrada ( e aproveitamos para soltar aqui a boa nova: vai ter Emancipa em Perus, Lauzane, São Remo, Jd. Romano, Sapopemba e Jd. Keralux).

Vamos caminhando juntas e juntos, pois  assim caminhamos melhor. Vamos juntas e juntos contra esse sistema que nos oprime e mata, porque assim somos mais fortes, somos gigantes! Se muito vale o já feito, mais vale o que será!

Balanço das Mulheres da Rede Emancipa  – Assinado por nós, feito por nós, construído por nós ao longo destes 10 anos.

São Paulo, 25 de novembro de 2017.

 

 

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