Cursinhos da Rede Emancipa

Um chamado em defesa de nossas florestas e de seus povos

Contra a emergência climática, a Rede Emancipa convoca a todos e todas para se mobilizar para a Greve Mundial do Clima no dia 20 de setembro

O sistema capitalista atravessa mais uma de suas crises, provocando recessão econômica, piores condições sociais para a maioria da população e fechamento de espaços minimamente democráticos. Dessa vez a ameaça impacta um aspecto ainda mais elementar, a partir do agravamento de uma crise ecológica e climática sem precedentes: a própria vida humana no planeta.

Desde os anos 1960 se acumulam evidências de que este sistema baseado em acumulação de riqueza em total desconexão com os limites da natureza — o Capitalismo —, além de não trazer bem estar para o conjunto da sociedade, poderia levar o planeta a um colapso total. 

O ano de 2015 foi bastante emblemático na luta por justiça climática, pois além de ter sido lançada uma agenda mínima de combate ao aquecimento global através do Acordo de Paris, foi quando os cientistas identificaram que a concentração de gases do efeito estufa atingiu o maior patamar na história da humanidade, despertando muita gente para a luta ambientalista e isolando ainda mais os negacionistas climáticos financiados pelos grandes capitalistas da indústria de combustíveis fósseis.

O último relatório do painel de especialistas da ONU sobre mudança climática identificou que temos apenas 12 anos para barrar o aquecimento global, demonstrando que a aceleração das mudanças climáticas  está ocorrendo de modo tão intenso que não estão sob risco somente as futuras gerações, mas também a nossa. Se nada for feito em um curto espaço de tempo, presenciaremos a intensificação do derretimento de geleiras, aumento do nível dos oceanos, ocorrência de eventos climáticos extremos, como furacões, tempestades, alagamentos, secas e queimadas, com reflexos na perda de biodiversidade, na produção de alimentos e agravamento de processos migratórios.  Os impactos da mudança climática representam efeitos devastadores em uma ampla gama de direitos humanos, incluindo direitos à vida, saúde, alimentação, moradia e água, bem como o direito a um ambiente saudável para as presentes e futuras gerações. É nesse grave quadro de crise climática global, quando se torna fundamental uma mudança estrutural desse sistema destrutivo que pode nos levar à extinção, onde se inserem os últimos ataques do Governo Bolsonaro sobre a Amazônia, a maior floresta tropical do mundo e bioma fundamental para o equilíbrio climático do planeta.

Evidentemente esse processo não se iniciou este ano.  O processo histórico acerca dos conflitos e exploração de terras na Amazônia vem ao longo dos tempos sendo alvo de constante disputa política, econômica, ambiental e social. Os ataques à Amazônia são vivenciados diariamente a partir das destruições feitas por madeireiros, a grilagem de terras e construções de hidrelétricas — como Belo Monte que no governo do PT foi uma pauta de luta e resistência das populações tradicionais e indígenas da região Norte. 

Nosso o povo sempre viveu a mistura de terra e sangue, podendo destacar personagens como a indígena Tuíra Kayapó, Dorothy Stang, Chico Mendes, José Claudio Ribeiro da Silva, Maria do Espírito Santo da Silva e tantos outros(as) anônimos(as) de um conflito que parece interminável entre o projeto de acumulação capitalista e os povos do campo e da floresta. Afinal, as populações indígena, amazônica, ribeirinha, caiçara, quilombola e tantas outras representam um atraso para o que o capitalismo entende por “progresso”. Como se houvesse pleno bem estar nas megalópoles e regiões metropolitanas. Por isso, é sempre importante lembrar que nossos povos e comunidades tradicionais travam uma batalha histórica para conter o avanço desse sistema que já destruiu mais de 90% da Mata Atlântica e mais da metade do Cerrado e da Caatinga. Nosso Brasil, além de deter a maior biodiversidade e patrimônio ambiental do mundo, possui um importante contingente de povos e comunidades tradicionais, como indígenas, quilombolas, ribeirinhos, caiçaras, que lutam pela manutenção do seu modo de vida e pelo seu direito de existir há mais de 500 anos. Lutam para manter a floresta em pé no país que mais mata ativistas e defensores do direito à terra e ao meio ambiente. 

Entretanto, a agenda do governo Bolsonaro hoje representa o completo desmonte da política ambiental, construída com muita luta nos últimos 40 anos. Além do escárnio pessoal com que Bolsonaro trata a agenda ambiental, o governo tem assumido uma postura explicitamente anti-ecológica, até mesmo com discursos que negam a ocorrência e a importância do enfrentamento às mudanças climáticas — começando pela  extinção do Conselho Nacional do Meio Ambiente e do Fundo Nacional sobre Mudança do Clima, instituídos por Lei, e da nomeação de Ricardo Salles para o Ministério, com apoio dos ruralistas e da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp). 

Segundo dados recentes do INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), as áreas com alerta de desmatamento tiveram um aumento de 90% em junho e de 278% em julho, em comparação com os mesmos meses do ano passado. Na Amazônia, a área desmatada já equivale à extensão do território de países como a Alemanha. Esse forte aumento do desmatamento nos últimos meses se soma ainda a uma preocupante tendência de crescimento que ocorre desde 2012, o que reflete as consequências das soluções apresentadas pelos poderosos para a crise econômica e da completa subordinação dos governos aos interesses do agronegócio. É um modelo de acumulação primitiva que reproduz a lógica colonial, presente de forma tão estrutural em nosso modelo de desenvolvimento ainda hoje.

Ao invés de agir para controlar o desmatamento, o governo Bolsonaro resolveu brigar com os dados oficiais e demitiu o Diretor do INPE no último mês. A escalada da crise atingiu maiores proporções nas últimas semanas com o anúncio dos governos da Noruega e da Alemanha sobre a paralisação do envio de recursos financeiros para o Fundo Amazônia e com as inéditas vaias recebidas pelo ministro do meio ambiente brasileiro em um encontro internacional do clima, diante da presença de 26 países. Ainda durante essa semana, o grave problema das queimadas na região amazônica e a chegada de uma enorme nuvem de fumaça no sudeste do país, que chegou a escurecer a tarde da cidade de São Paulo no dia 19, terminou por romper de vez o isolamento da luta em defesa de nossa floresta, demonstrando que a proteção da Amazônia é uma necessidade de todo o país.

Como resposta a esse grave quadro mundial, tem surgido em vários lugares do mundo novos processos de organização política e mobilização de massas em defesa do clima, a partir de um forte protagonismo da juventude. São jovens indignados que se veem sem perspectivas de futuro com a aceleração do aquecimento global e com a falta de compromisso da classe política com a construção de respostas estruturais para a crise ecológica e climática. Esses novos processos de mobilização têm levado milhares de jovens às ruas em várias cidades do mundo, através de iniciativas como as greves estudantis pelo clima e diversos protestos em frente aos parlamentos e sedes de governo, reivindicando o reconhecimento de que estamos diante de um estado de emergência climática. 

Nesse contexto, os movimentos de luta pelo clima estão convocando uma nova Greve Global pelo Clima para o dia 20 de setembro. Diante da escalada da crise do governo Bolsonaro na área ambiental, da enorme repercussão nacional e internacional sobre o avanço de desmatamento e queimadas na Amazônia e das manifestações de rua ocorridas em várias partes do país na última semana, avaliamos que esse ato ganha uma enorme importância e tem potencial de atingir grandes proporções em muitas cidades brasileiras. 

Sabemos que desenvolvimento capitalista e preservação do meio ambiente são pautas irreconciliáveis, uma vez que um dos pilares que sustenta esse sistema é a exploração desenfreada da natureza como recurso natural infinito. Por isso é fundamental sermos parte dos movimentos que estão sendo organizados, não só para denunciar as consequências desastrosas desse tipo de política em todos os seus níveis, mas também para anunciar saídas — que passam, principalmente, por entender o capitalismo como origem do problema e a necessidade de sua superação.

A Rede Emancipa de Educação Popular, como ferramenta de organização da juventude periférica, quer participar desse processo mobilizando toda sua base de professores, estudantes e parceiros nos territórios, de Santarém à Porto Alegre, para construção de uma potente Greve Mundial pelo Clima no dia 20 de setembro. Estaremos nas ruas de norte a sul do país, organizando a juventude da Amazônia às periferias das grandes cidades, semeando o caminho para um outro mundo necessário.

Para isso, orientamos que em todas as unidades do Emancipa no Brasil se construa, com estudantes, comunidades, especialistas e universitários, círculos, debates, formações, no sentido de organizar um novo ciclo de luta em defesa do clima.

Nosso desafio é carregar a vida até o século 22, oferecendo uma vida digna aos habitantes deste planeta no século 21. O desafio é grande, mas é do tamanho dos nossos sonhos e da nossa coragem. Os próximos poucos anos são provavelmente os mais importantes da nossa história. Estaremos à altura! Não vão destruir nosso futuro!

REDE EMANCIPA— MOVIMENTO SOCIAL

DE EDUCAÇÃO POPULAR.

28 DE AGOSTO DE 2019

 

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