Cursinhos da Rede Emancipa

Carta política da Escola Emancipa 2019

De uma época de mudanças…

Vivemos um tempo de crise global: ela é econômica, política, ambiental,cultural, migratória e humanitária. Em todo o mundo as nações não tem conseguido frear processos de esgotamento das alternativas para solucionar “por dentro” os impasses criados pela sociedade capitalista. Impasses de um modo de viver no qual prevalecem sempre a competição, o individualismo e a indiferença em relação às mais diversas formas de exploração e opressão de bilhões de pessoas.

A crise da qual falamos é, antes de mais nada, gerada pela pressão dos grandes capitalistas ao redor do mundo para ampliar seus lucros e espoliar os poucos recursos públicos que ainda garantem uma vida digna. Por isso, em todo lugar os “de cima” investem e apoiam representantes que pratiquem diferentes formas de austeridade (cortes na educação, saúde, aposentadoria, reforma trabalhista e etc.). Ou seja, retiram ainda mais dos mais pobres, para preservar o lucro dos que detêm o poder. Isso é possível porque a sociedade capitalista foi forjada, além da exploração, no racismo e no patriarcalismo, estruturas que dão sentido às mais diversas formas de desigualdade.

Uma situação de crise como essa exige mudanças, sejam elas sistêmicas ou anticapitalistas. Como a atual crise é grave, as saídas que preservam o sistema não solucionam os problemas. A mudanças anti-sistêmicas, por sua vez, enfrentam maior resistência na política e na cultura porque vão contra os interesses dominantes e vários sensos comuns estabelecidos. A mídia corporativa, os partidos da ordem, os donos das grandes empresas e muitas lideranças religiosas repetem o tempo todo o mantra “Não existe alternativa ao que está colocado”. Por iss dizemos que vivemos em uma época na qual nada permanece no lugar, ao mesmo tempo em que as coisas seguem iguais. Todo governo ou liderança política é sucedido por outro que diz que fará melhor que o antecessor. Como são incapazes de cumprir a
promessa, esses políticos perdem espaço para quem afirma que uma verdadeira solução no Brasil só seria possível por meio do uso da força bruta. Com tudo, nenhum deles sabe dizer como isso seria feito, por quê tal repressão é necessária ou em que esta se diferencia das formas de “imposição” política já experimentada na história.

Vivemos uma época de mudanças. A crise econômica que assola o mundo desde 2008 coloca em xeque os partidos da ordem e a velha política de conciliação de classes e de bem estar social. Num momento de estabilidade, esse tipo de política conseguiu garantir certos direitos sociais, mas com a chegada da crise escolheu-se espoliar a classe trabalhadora. Essa mudança de direção criou uma fratura no regime político. Nela, partidos e alianças políticas surgem e se desmancham; movimentos sociais emergem com a bandeira da autonomia paradepois se converterem em tendências político-parlamentares ou sindicais-corporativas. Ao mesmo tempo, figuras da política tradicional são dissolvidas em escândalos. Em uma época de crise como a presente, portanto, nenhuma alternativa política é capaz de sobreviver se não souber ouvir atentamente e falar a verdade para a população sobre todos os temas e não se propuser a organizar com afinco a conquista da autonomia integral em relação ao sistema e seus agentes.

Na cultura, a época de mudanças é bastante contraditória. Por um lado, a internet e as novas tecnologias digitais permitem a produção e compartilhamento dos conteúdos mais diversos em uma escala inédita na história. Uma revolução tecnológica democrática comparável ao surgimento da imprensa. Apesar disso, sabemos que a reprodução técnica das obras culturais, embora imprescindível, não é suficiente para o fortalecimento de alternativas sociais igualitárias. ​Essas só podem nascer da socialização efetiva dos meios de produção e vivência cultural pelo povo. Uma socialização que signifique, ainda, a expansão verdadeiramente democrática do acesso à educação e ao fazer científico públicos pelas classes subalternas.

Por fim, a crise atual é uma crise ambiental. O modelo de exploração capitalista é violento com a natureza como é com as pessoas. Para manter em pé este sistema decadente, é necessário destruir os biomas, as águas, o ar e o clima. Nossas florestas. Uma sociedade que promovesse a igualdade não colocaria em segundo plano as mudanças climáticas, a poluição drástica das cidades, a fome, as doenças, mortes e destruição produzidas pelo agronegócio, pela exploração petrolífera e pela indústria. Não esqueceria da reforma agrária. Contudo, uma sociedade desigual, mesmo que possa oferecer alguns paliativos, jamais será capaz de solucionar os conflitos profundos sobre os quais apoia sua manutenção.

… a uma mudança de época.

Em todo o mundo, cresce o sentimento de que apenas uma transformação profundamente igualitária das relações econômicas, políticas, culturais e ambientais pode oferecer uma saída para os problemas que enfrentamos. Esse sentimento cresce, não por acaso, especialmente na juventude, entre movimentos estudantis, feministas, antirracistas, ambientalistas e LGBTQIA+. Esta emergência política – que deu seus primeiros sinais de vida na década de 1960 – possui também uma forte conotação global, pois desloca para o centro da política grupos subalternos e regiões periféricas.

Se existe algo que comprova o caráter profundo da atual crise é a radicalidade e alcance global das experiências de resistência que surgiram com ela: movimento Occupy nos Estados Unidos, dos ​Indignados na Espanha, a primavera árabe e a resistência palestina. No Brasil, somos parte das jornadas de Junho de 2013 no Brasil, das ocupações de escolas em 2015 e 2016, do movimento ​#EleNãoem 2018, das greves feministas internacionais, dos embates contra os cortes na educação e ciência públicas, das greves globais por direitos dos trabalhadores precários de megacorporações como Amazon e Uber e, mais recentemente, da luta em defesa do clima. Vivemos um longo e desafiador processo de organização e mobilização internacionalista pela igualdade: a Rede Emancipa, nascida e sobrevivente dos escombros da devastação neoliberal no Brasil, é parte orgânica e ativa dessa história.

Movimento de educação popular, desde 2007 organizamos e formamos estudantes e professores nas escolas, universidades, Igrejas e associações de bairros periféricos em todo Brasil. Apostamos na educação popular como uma ferramenta importante na luta pela emancipação do povo. Nosso passado é o da luta democrática radical contra toda forma de ditadura. Nos inspiramos em experiências solidárias e radicais de lutas antirracistas e anticapitalista que nos antecederam em todo o mundo, em todas as línguas, culturas e religiões.

Somos conscientes de que em nossa sociedade de passado escravista, o racismo e o machismo integram a organização econômica e política de toda a vida coletiva e que, portanto, que quando a mulher negra semovimenta, toda a estrutura social se movimenta com ela. Somos parte, portanto, da história de todas e todos que um dia se colocaram o desafio organizar os “de baixo” para converter a atual “época de mudanças” em uma verdadeira mudança de época. ​Voa, Emancipa!


 

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