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A culpa é de São Pedro?

A culpa é de São Pedro?

Na última segunda feira, 10 de fevereiro, a região metropolitana de São Paulo amanheceu paralisada, mas não foi uma greve geral que paralisou  diversas linhas de trem e ônibus, e sim enchentes generalizadas. Parecia o cenário de um filme de catástrofe ou até mesmo a clássica música do Raul Seixas: “O dia que em que terra parou”.

Diversos especialistas enfatizaram em entrevistas recentes variadas decisões historicamente desastrosas que contribuíram para esse caos, como a impermeabilização do solo (construção de prédios, ruas, avenidas e etc.), a retificação dos rios Pinheiros e Tietê, e  a ocupação das várzeas dos mesmos (veja, por exemplo, a professora da UFABC Silvia Passarelli em entrevista ao Nexo Jornal).

Contudo, para os governantes como João Dória (Governador do Estado de São Paulo) e Bruno Covas (Prefeito de São Paulo), ambos do PSDB, o culpado pelo caos causado pelas chuvas em São Paulo é “São Pedro” que provocou chuvas torrenciais em poucas horas.

Mas quem cai nesta resenha? O Estado de São Paulo investiu apenas 60%  do valor em combate a enchentes. Já a Prefeitura da Capital somente 48% (dados do Portal G1). Para onde foi essa verba? Enquanto isso, o Governador de São Paulo, João Dória, estava inaugurando uma sede de negócios em Dubai (Leia-se: privatizações!!!). 

Nesta visita de Dória a Dubai, o mesmo se encontrou com investidores da SABESP, empresa que tem capital aberto na bolsa de valores e que foi privatizada nos anos 90 pelo avô de Bruno Covas, o ex-governador do Estado de São Paulo (1995-2001), Mário Covas.

Boa parte dos recursos que deveriam ser investidos no sistema de tratamento de água e esgoto serve de remessa internacional para estes “investidores”. Já a população mais precarizada e pobre do Estado de São Paulo paga taxas de água e de esgoto caríssimas.

É importante destacar que o tratamento de esgoto está longe da universalização, que foi tantas vezes prometida pela empresa de capital misto e pelo Governo do Estado. Boa parte do esgoto de São Paulo é despejado em natura nos rios e córregos. Essa negligência e omissão do Governo gerido pelo PSDB e pela SABESP é a principal causadora das enchentes que ocorrem em dias chuvosos.

A culpa está longe de ser do “São Pedro”. As enchentes invadem as ruas e casas, inclusive com grande potencial para provocar doenças de vários tipos para a população, além da contaminação do lençol freático, represas e etc.

Aqui vale um histórico: a culpabilização de “São Pedro” vem de muitas décadas. Na crise hídrica de São Paulo no ano de 2014, o Governador Geraldo Alckmin (também do PSDB), culpou o santo conhecido como “O guardião das chuvas” pela falta de chuvas. Naquele ano, quem morou nas periferias da grande São Paulo viveu um paradoxo: enquanto tinha suas casas alagadas por águas das chuvas do verão, ao mesmo tempo, não tinha um pingo de água na torneira.

 Há elementos que fazem a ligação entre o período atual e 2014. Primeiro: a falta de investimento.  Segundo: desprezo pelos alertas científicos. Em 2014, completava-se 10 anos que cientistas alertaram o Governo de São Paulo sobre as possibilidades de seca. Contudo, o alerta foi desprezado e pouco investimento foi direcionado para a captação de água e para combate ao desperdício pelo sistema antigo da SABESP.

Na atualidade, boa parte da comunidade científica que estuda mudanças climáticas alerta que as atividades humanas potencializam os fenômenos naturais. No nosso caso, as chuvas podem se tornar cada vez mais frequentes e torrenciais, como aconteceu no Estado de Minas Gerais governada pelo Romeu Zema do “Novo” e no Rio de Janeiro do Governador Wilson Witzel do PSC. O contrário também pode ocorrer de forma simultânea, ou seja, os períodos de seca podem ser tornar mais severos.  

Mas a culpa é de quem? A resposta não é simples, mas certamente não é de “São Pedro”. Muito menos pode ser atribuída totalmente aos indivíduos, como estrategicamente sempre é feito: jogou lixo na rua, lavou o carro, tomou banhou demorado e etc.

 As políticas neoliberais têm boa parte dessa culpa, pois transforma um bem comum como a água em mercadoria. Diga-se de passagem, os poderosos que ocupam os cargos de poder no Brasil são os maiores defensores e aplicadores dessa política de morte aos pobres, afinal, aqueles que não podem pagar são os principais alvos dessas políticas.

Mas como solucionar? É necessário, primeiramente, cobrar medidas imediatas por parte dos prefeitos e governantes: limpeza de galerias e piscinões, indenização para atingidos por enchentes, auxílio aluguel para que perdeu suas casas e etc. Para médio prazo, a realização de uma Reforma Urbana com mais parques e áreas permeáveis, programa de moradias realmente popular e de qualidade (o programa Minha Casa Minha Vida não contemplou quem tem renda mais baixa e algumas construções seguem feitas em locais de risco), investimento em transporte público e etc. 

Para longo prazo, somente uma mudança sistêmica pode resolver estes problemas, pois o modo de produção é insustentável, submetendo os recursos naturais e as vidas das pessoas a interesses de “investidores”,  classificando os moradores da periferia como não cidadãos, sem direito à moradia, água limpa, esgoto tratado, tal como alertava o geógrafo Milton Santos.

Para nós, moradores da periferia, em especial, aos mais atingidos nas regiões da Zona Oeste (Osasco, Carapicuíba, Barueri, Jandira, Itapevi, Santana de Parnaíba…), neste momento cabe nos solidarizar com famílias atingidas doando roupas, calçados e alimentos não perecíveis. Além disso, é fundamental que nós, o povo periférico, se organize para cobrar as soluções imediatas e para mudar essa lógica perversa. 

Ricardo Almeida – Professor de Geografia – Rede Emancipa

 

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