Cursinhos da Rede Emancipa

Sobre pandemia e Periferias: um manifesto

Enquanto estamos aqui reunidos nesta importante aula inaugural, as periferias do mundo estão sofrendo os efeitos mais devastadores da pandemia. Uma crise que já é uma das maiores que a humanidade já viu. Para o povo pobre e trabalhador o drama da crise sanitária vem acompanhado da ferida sempre aberta da desigualdade social.

Aqui no Brasil, em muitos lugares, a fome chegou antes do vírus. A precarização e a superexploração do trabalho, a retirada de direitos, a violência cotidiana das políticas de Estado, o encarceramento em massa e a criminalização da pobreza já vinham avançando a passos largos nas nossas quebradas. Com o novo Coronavírus o desemprego atingiu de forma ainda mais devastadora as periferias urbanas e rurais que, lançadas à própria sorte, agora estão cada vez mais assoladas pela miséria e pela falta de perspectivas.

É preciso sempre dizer quem são os que estão morrendo. No Brasil de hoje onde o crescimento da contaminação e das mortes é galopante, é nas favelas, ruas, vilas e comunidades pobres onde a letalidade é muito maior. A negação do direito à moradia digna é também a negação do direito à proteção contra o vírus, ao isolamento ou distanciamento. Como cuidar da saúde se não tem água em casa boa parte da semana? Como se proteger se seu patrão te obriga a ir trabalhar no transporte público? Como não sair de casa se a sua renda não permite fazer estoque mínimo de alimentos? Como se informar corretamente se o direito à internet e à educação é negado sistematicamente e alimenta a criminosa e genocida campanha de desinformação feita pelo Presidente da República?

Nós da Rede Emancipa conhecemos essa realidade não de ouvir falar, mas porque somos parte dela. As periferias são a nossa casa, o nosso lugar de trabalho, o nosso território de cultura e de militância. São as nossas famílias, os nossos amigos que estão morrendo sem receber atendimento porque os hospitais públicos já estão superlotados. Há 13 anos, quando iniciamos a construção do nosso primeiro núcleo de educação popular que formou o Cursinho Pré-Universitário Chico Mendes, em Itapevi, região metropolitana periférica de São Paulo, sabíamos que nos organizar era, como sempre foi pra classe trabalhadora e para o povo pobre do país, uma condição de sobrevivência mas também de luta por uma verdadeira emancipação.

Para nós, ao contrário do que dizem os muitos que chegam para dizer às periferias o que tem que ser feito, a educação popular não é somente para incluir. Não temos ilusão de que seremos incluídos nesse sistema a não ser como mão de obra barata, como meros consumidores ou como aquelas exceções que “deram certo” somente para confirmar a regra da desigualdade capitalista e do racismo estrutural. A educação que fazemos é uma forma de solidariedade com os nossos que queremos ver vivos, nas universidades e onde mais queiram estar. É nossa arma para derrubar os mitos e as máscaras sociais que estruturam esse Brasil injusto e também forma fundamental de organização e emancipação da maioria do povo. Para nós, tão importante quanto reconhecer a necessidade de uma educação crítica em tempos onde idiotas atacam o Paulo Freire, é também “pedagogizar” a nossa crítica e a ação política. Educação popular é sinônimo de trabalho de base, algo que anda tão em falta para muitos setores que querem mudar o país.

É com essa orientação que nestes anos, além dos cursinhos pré-universitários gratuitos e populares, construímos em todo o Brasil educação popular com alfabetização de jovens e adultos em ocupações urbanas, educação em situação de privação de liberdade, no cárcere, prisões e sistema socioeducativo, português como língua de acolhimento para imigrantes, educação infantil, educação feminista e antirracista, saraus e espaços culturais, esporte e trabalho comunitário. Antes da pandemia nos organizávamos em 7 estados, mais de 70 núcleos. Com esse curso estamos chegando, além do Distrito Federal, a todos os 26 estados do Brasil e também a Angola, Cabo Verde, Colômbia, Argentina, Chile, Peru, Uruguai, México, Filipinas, Estados Unidos, Canadá, Japão, Inglaterra, Espanha, Bélgica, Alemanha, Irlanda, França, Suécia, Itália e Portugal. Hoje, entre professores e estudantes inscritos apenas neste ano, em todas as nossas frentes de educação popular, somos mais de 20 mil pessoas que compõem a Rede Emancipa.

Já somos muitos mas precisamos do engajamento de todos. Há quase dois meses tomamos a decisão de cancelar as dezenas de aulas da Rede Emancipa que reuniriam presencialmente milhares de estudantes nas periferias de todo o Brasil. Desde então, junto à defesa de um programa de emergência para o povo, nossos núcleos populares têm se dedicado intensamente a três tarefas principais: 

1) Iniciativas de solidariedade ativa nas comunidades em que atuamos com arrecadação de alimentos, produtos de higiene e livros  que, ao contrário da caridade ou do assistencialismo, têm o intuito de criar núcleos de apoio mútuo e organização coletiva. Por meio dessas campanhas construídas com apoio de ativistas e simpatizantes da Rede Emancipa foi possível ajudar de imediato centenas de famílias e milhares de pessoas, adultos e crianças, em favelas, comunidades e entre grupos imigrantes. A isso aliamos a luta por um programa emergencial para conter a crise que preveja entre outras medidas que divulgamos no início da crise, a manutenção e ampliação da renda mínima, a fila única nos hospitais públicos e privados gerida pelo SUS, o apoio aos profissionais de saúde e a reconversão do parque industrial para que a produção se volte ao combate da pandemia;

2) Repensar formas de organização e educação popular à distância para fortalecer estudantes, professores e famílias na luta contra a doença, com apoio psicológico, escuta, engajando todo o movimento na sua autopreservacao, tanto de estudantes como de familiares e por um futuro que possa deixar a morte, o descaso e o abandono para trás, reinventando as nossas práticas político-pedagógicas; e 

3) Investir pesadamente na formação dos nossos militantes, na leitura, na apropriação e crítica das teorias emancipatórias, ampliando nossa capacidade de leitura e intervenção no mundo.

As vidas periféricas importam e dependem hoje, mais do que nunca, de iniciativas que ajudem na compreensão, organização e transformação da solidariedade em um caminho de luta pelo autogoverno das maiorias. Este curso “Entender o mundo: Pandemia e Periferias” promovido pela Universidade Emancipa, é parte disso. Ele é, em primeiro lugar, uma convocação de professores, estudantes, intelectuais e parceiros que atuam nos Centros e nas Periferias a tomar o lado das maiorias – que incluem os grupos de trabalhadores/as ambulantes, informais, os entregadores de aplicativos, as pessoas aglomeradas nas prisões e suas famílias, a negritude, as mulheres, a população LGBTQ+ e toda a diversidade do povo que vive do trabalho – nesta luta. Ao mesmo tempo, essa “convocação” acontece também porque, até hoje, a academia foi incapaz de interpretar essa realidade. Ou melhor, essa interpretação, sozinha, foi incapaz de transforma-la. Por isso também há 3 anos estamos construindo a Universidade Emancipa, como nosso centro de formação de educadores populares.

Há um genocídio em curso contra o qual temos a nós mesmos para enfrentar. Por isso, e por fim, como não poderia deixar de ser, gritamos em alto e bom som Fora Bolsonaro! Lutamos não só pela sua saída da presidência mas também seguiremos e ampliaremos a luta para que esse entulho da ditadura militar, do colonialismo e da escravidão que sustenta as elites e oligarquias brasileiras seja de vez varrido da nossa história. E que dos escombros desse modo de produção capitalista que nos trouxe a esse momento trágico, consigamos construir um novo caminho para uma história humana livre, justa e igualitária.

Rede Emancipa — movimento social de educação popular

5 de maio de 2020

 

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